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PIQUET, STEWART E BRAHAM, OS MAIS COMPLETOS

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Por mais que gostemos de pilotos, o CARRO é a parte mais importante desse esporte sem a menor dúvida. Então o piloto que souber ajustar e desenvolver o CARRO, levará vantagem sobre os demais. Temos alguns pilotos acertadores de carros na história como: Stewart, Fittipaldi, Lauda, Andretti, Piquet, Prost, Senna, Laffite, De Angelis, Moreno, Schumacher, Barrichello, Button, etc.

Mas Nelson Piquet está num grupo único dos pilotos que eram ao mesmo tempo ACERTADORES E DESENVOLVEDORES DE CARROS, e só pode ser comparado a Jack Brabham e Jackie Stewart, que foram pilotos que marcaram suas épocas por trabalharem mais o carro do que a pilotagem, algo praticamente inexistente na F1 atual.

JACK BRABHAM:

Jack Brabham foi o primeiro a ser campeão num carro projetado e desenvolvido por ele (fato único na história), pois foi ele que desenvolveu o chassis Brabham e orientou a montadora de motores REPCO na construção dos seus motores com peças de carros de rua, para utilizar bloco do Oldsmobile V8 com liga leve e bielas do Daimler Majestic, isso aconteceu em 1966 na mudança do regulamento para motores de 1.500 cm3 para 3.000 cm3 (Fonte: Livro A Fórmula 1 Moderna pg 101), e com isso a REPCO construiu motores razoavelmente potentes e bastante confiáveis. Em algumas ocasiões, ele mesmo chegava a trabalhar no carro.

O impressionante do Jack Brabham na equipe Brabham é que ele acumulou as funções de Piloto, Projetista e Chefe de Equipe, algo que seria totalmente inconcebível nos dias de hoje.

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JACKIE STEWART:

Jackie Stewart teve a sorte pelas mortes de Jim Clark e Jochen Rindt, e os finais de carreira de Jack Brabham e Graham Hill, mas o fato que ele foi inteligente em entender as mudanças que estavam acontecendo na F1, quando houve a transição para a era dos aerofólios e dos pneus slick da F1. Em 1971, muitos achavam que os pneus slicks iriam escorregar mais que os pneus estriados, mas ele enxergou na frente de todos e foi o primeiro a se dedicar aos TESTES DE PNEUS.

 

Nesses testes ele percebeu que a performance do carro variava muito com a escolha do pneu e com o acerto do carro,  com isso ele levou vantagem sobre os demais pilotos e equipes da F1. Stewart foi campeão pela equipe Tyrrell, que tinha menos recursos que os "bichos papões" Ferrari, Lotus, BRM e Brabham. Feito considerado impressionante até hoje.

 

Uma semelhança entre os três títulos de Stewart (Matra e Tyrrell) e os dois primeiros de Piquet (Brabham), é que foram obtidos com equipes com menos estrutura que as grandes da época e com o talento de ambos para acertar e desenvolver seus carros.  

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NELSON PIQUET:

Nelson Piquet tem uma das carreiras mais fantásticas da história, ele começou como mecânico da Oficina CAMBER em Brasília, ao lado de Roberto Moreno e Alex Dias Ribeiro (os três chegaram a F1). Nas categorias de base (Fórmula VW, Super V e F3 Inglesa) ele mesmo desmontava e montava seus carros, algo muito raro no automobilismo mundial, por isso ele chamava a atenção das equipes grandes, sendo contratado por elas no ano seguinte e se sagrando campeão por elas.

Nas categorias de base, a pressão dos pneus era o segredo para gerar a performance do carro durante as corridas. Para não copiarem a pressão dos pneus do seu carro, Piquet abria os medidores de pressão e entortava os ponteiros para informar a pressão errada, artifício bem do "jeitinho brasileiro".

CURIOSIDADE: Nesse período teve o caso da corrida em Cascavel (PR), na qual a Kombi de Piquet que transportava seu Fórmula fundiu o motor na estrada. Para continuar viagem, Piquet teve que desmontar o motor do Fórmula, colocá-lo na Kombi para chegar até o local da corrida. Noutra corrida ele usou o motor do Fusca da Dona Clotilde, mãe do Alex Dias Ribeiro que tinha deixado o carro na oficina CAMBER para fazer uma revisão de freios.

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Piquet e Moreno no Kart                                              Piquet na F Super V 1976 

No 1o teste que ele fez na F1 em Silverstone com uma McLaren M23, ele impressionou os Engenheiros da equipe pela forma que ele acertava o carro. Ele fez 6 modificações no carro e cada uma provocava uma melhora no desempenho. (veja reprodução abaixo). Ele foi apenas 0,7s mais lento que Patrick Tambay que treinou com o McLaren M26 mais moderno e com pneus mais macios no mesmo dia. Isso mostrava que nessa fase da carreira, Nelson já tinha muito conhecimento de mecânica.

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Fonte Jornal O Globo 21/07/1978 pg 26

 

Piquet estava sempre procurando algum artifício para ter vantagem sobre os outros pilotos. Na Brabham ele passou a entender como Niki Lauda se comunicava com os engenheiros para passar informações sobre o carro. Depois da saída do austríaco da equipe Brabham, Piquet ficou como primeiro piloto e formou uma dupla genial com o Projetista Gordon Murray.

 

O brasileiro passava parte do tempo dele na fábrica da Brabham procurando entender como funcionava a integração das partes do carro (motor, chassi e aerodinâmica), além disso ele e Murray procuravam implementar melhorias no carro em torno das "brechas" do regulamento. Ambos trabalhando juntos foram melhorando o carro a partir de 1979.

 

A Brabham foi um dos primeiros a ter regulagem de barra estabilizadora, distribuição de freios por eixo e regulagem de pressão de turbo de dentro do carro. Isso culminou com a conquista de dois títulos mundiais (81 com motor Ford e 83 com motor BMW) disputando contra Ferrari, Lotus, Williams e McLaren, numa época com pouca telemetria, onde o piloto fazia toda a diferença no acerto e desenvolvimento do carro.

Em 1982, foi a transição dos motores Ford Cosworth para BMW Turbo na Brabham e a partir do GP Bélgica 82 Piquet passou a desenvolver os novos motores para a temporada seguinte. Um detalhe importante, em 1982 Murray vendo as corridas da Indy, pensou que seria interessante fazer a parada de reabastecimento na F1 (pit stop), para isso Piquet sugeriu a introdução do aquecimento prévio de pneus, como ele próprio já tinha feito na F3 inglesa, com isso o carro já sairia dos boxes com os pneus quentes e não perderia tempo para aquecê-los.

Com essa ideia do Piquet, Gordon Murray em 1983 na F1 criou um armário aquecido por gás quente que fazia o aquecimento de pneus (não confundir com cobertor elétrico que foi uma evolução do armário criado por Gordon Murray, introduzido pela Lotus em 1984) dentro dos boxes. Esse artifício foi fundamental para Piquet ganhar o título de 1983. 

IMPORTANTE: Na F3 inglesa Piquet inventou um artifício interessante, antes das largadas ele colocava seu carro embaixo de uma tenda com um fogareiro e esse "truque" fazia os pneus ficarem mais quentes, o que lhe dava vantagem sobre seus adversários. O PIT STOP já existia na F1 desde a década de 1950, e Gordon Murray e Piquet apenas o reintroduziram na F1.

Veja o link do vídeo de Piquet sobre esse assunto. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=R1DLT1cMcHo (Piquet se emociona ao contar sua história em colégio)

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Desenho de Gordon Murray do Aquecedor de pneus criado por ele mesmo. (Reproduzido do CANAL AUTOMOBILISMO BRASIL, fonte: https://www.youtube.com/watch?v=E0U4NPrxTT4A).

Em 1987 Piquet sofreu acidente em San Marino, ficou internado no hospital e depois disso nitidamente ele perdeu velocidade (cerca de 0,6s). Mas ele soube compensar essa falta de velocidade com extrema regularidade aliada ao desenvolvimento da suspensão ativa da Williams, pois ele viu que poderia levar vantagem em relação a Nigel Mansell, já que o inglês se recusou a desenvolver esse equipamento e correu com a suspensão convencional. Com isso o brasileiro conseguiu ser campeão do mundo, mesmo sendo mais lento que o Leão. Desenvolver carros é algo que sempre esteve presente na carreira de Piquet.

Em 1990 Piquet entrou na equipe Benetton do projetista inglês John Barnard. O brasileiro percebeu que o motor Ford Cosworth V8 gastava menos gasolina e preservava mais os pneus que a concorrência, então ele podia largar mais leve que as McLarens e as Ferraris, com isso não fazia troca de pneus e podia "dar o golpe" de não parar nos boxes, situação inversa que ele fazia em 82 e 83 na Brabham. Isso mostra como Piquet sabia explorar as vantagens do carro, com isso ele fez uma ótima temporada, ficando em 3o lugar no geral do campeonato, só ficando atrás de Senna e Prost, mostrando que ele ainda tinha talento para mostrar aos 38 anos.

POR QUE PIQUET FOI O PILOTO MAIS COMPLETO DA F1?

Porque ser um piloto de F1, não é só pisar no acelerador....

 

O piloto tem que saber acertar o carro, saber conversar com os engenheiros, desenvolver o carro, usar a inteligência nas estratégias, evitar acidentes, aguentar pressão para administrar um campeonato. Ele ganhou títulos disputando contra Alan Jones (81), Reutemann (81), Prost (83 e 87), Senna (87) e Mansell (87), dois gênios e três excelentes pilotos. Não teve moleza!

 

Nesse aspecto Piquet era 100%, ele era rápido, cerebral, entendia a parte técnica e sabia desenvolver os carros, ele ganhou 3 títulos nos anos 80, que talvez tenha sido o período de maior dificuldade de pilotagem da história da F1, pois os motores tinham potência descomunal com mais de 1200 HP, com turbo lag, sem ajudas eletrônicas, a telemetria ainda estava em desenvolvimento e teve como adversários pilotos talentosíssimos.

Atualmente os pilotos se preocupam, quase que exclusivamente em pilotar e testar em simuladores, os Engenheiros fazem o trabalho de ajuste no carro e o piloto esporadicamente sugere alguma alteração no acerto. Por isso essa característica do Piquet, Stewart e Brabham é muito rara nos dias de hoje.

Por tudo que conquistou na carreira, mesmo sendo menos GENIAL em termos de pilotagem que Fangio, Clark e Senna, Piquet está no topo da lista como um dos mais completos de todos os tempos, ao lado de Stewart e Brabham.

 

Gordon Murray compartilha com essa opinião: "O piloto mais rápido que trabalhei foi Ayrton Senna, mas o mais completo foi Nelson Piquet." Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=dzFm8oADBPI (Canal Enerto).

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